Ah, bate leve, mais levemente!
Eu julguei morto meu coração
Na hora passa, como demente
Ophelia indo para a corrente,
Não sei que incerta minha emoção.
 
Julguei-te morto, coração triste,
Que nada fazes salvo doer.
Julguei-te morto, e ainda existe
Na tua cinza algum fogo e resiste
Em ti ainda o mal de sofrer:

Ah, com que falsa certeza ainda
Ontem te tive por findo e nefasto
E hoje sou trémula chama, vinda
Ao acaso do vento □

Coração triste, vibras incerto,
Gemes na tua desolação.
Que oásis falso no teu deserto
Não foi esta vaga miragem perto
Da tua inútil consolação!

Ah, □, prefere ver-te
Parado e morto, vivendo embora...
Prefere frio e □ crer-te,
Prefere ser o □ incerto
Desconsolado □ da Hora.

Não deixes nada acordar um gesto
Um vago assomo de uma emoção
Do teu cansaço secado, resto
De não sei que □ filho do incesto
Da mágoa tua paixão.

Recolhe, monge definitivo
Ao peito aonde te abrigas

Sê firme, crê que ninguém deseja
O teu asilo ou o teu abrigo.
Em teu deserto nada viceja.
Quem queres tu que te queira...
Coração triste, vive contigo.

Abdica como um rei velho e absorto
Em cousas longe do reino seu.
Que sabe o povo □ e morto,
Que sabe o ódio □
Abdica, □

Seja o teu único gesto grande
No frio nada do teu sofrer
Sem querer que o único sonho abrande
Teu □
Abdica e vive de não viver!

Morta planície de pedra e areia
Não dando ao sol um sorriso seu.
Suporta o mundo; que nada creia
De ter na vida ou na □ que anseia...
Dorme o sono de quem (muito) sofreu.

Pobre criança que qu’ria ter
Em toda a vida canções da ama.

26 - 7 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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