Os campos dão pedras, as vinhas estiolam, 
as aldeias dão párias emigrando em porões

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje; 
não deixes para amanhã o quebrar do silêncio, 
meter a foice no trigo sazonado, 
carregar no botão, soltar a tempestade. 

Quebra a solidão com o sol matinal 
que aponta a claridade sobre as frondes. 

As cidades dão fumo, queimam a amizade, 
esmagam a consciência, distribuem o crepúsculo, 

Um pequeno descuido, nova fuga de tempo, 
o espelho transforma-te em velhice — perderás a vida, 
pálido, encolhido, no fundo das caves, 

É mais tarde do que pensas! 
É difícil agora deste fruto ácido 
conseguir raízes, flores e perfume. 

Não deixes para amanhã o grito necessário, 
o enforcamento sumário do agente opressor, 
o tributo para a máquina de alargar horizontes... 

Eis o que me disseram! 


In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
EIS O QUE ME DISSERAM
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