Se Cíntia sorria, a Natureza sorria,
Os rios, diamantes, brilhavam ao dia;
No ramo, afinadas, as aves cantavam
Enquanto, mugindo, os gados pastavam.
Ao riso de Cíntia, o mundo, da dor roubado
E as flores sorriam ao zagal enamorado;
A própria tormenta seu poder refreava,
Os mares sussurravam e a terra brilhava.
Se triste era Cíntia logo os céus rugiam,
A terra tremia e os ventos gemiam;
Gente cabisbaixa, rostos sem sorrisos,
As flores se fechavam, os campos mortiços.
Se Cíntia zangada, tudo em som alterado
E o mundo mudava o curso costumado;
O sol era fraco, a lua escurecia,
A noite um inferno, o dia anoitecia.
Mas, vivendo esse tempo, cego o meu olhar
Para tais milagres poder contemplar.
Para mim o sol tinha o brilho usual
E a raça humana, na mesma, carnal;
A tormenta seguia não menos troante
E a dor dos homens também incessante;
Nem no ramo as aves cantavam melhor,
Nem a Natureza tinha um brilho maior;
Nem girava o mundo ou ficava retido;
O que então girava era o teu sentido.

1904

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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