Morto? Não sei que pensamento
Te ponha ao lado de morreres;
Ó companheiro que um momento
Roubas a mim, roubas a seres...
 
As longas noites rememoro
De vã conversa e ocioso estudo,
E dentro em mim, abstracto, choro
A sorte temporal de tudo.

Com que maligna insubsistência
Tudo não é, e tudo flui!
Ó privilégio da demência —
□ eternos que construi!

Pudesse eu conceber sem morte
Cada intangível impressão.
Oco triunfador da Sorte
Brandindo um ceptro de ilusão,

Entrara ao menos no futuro
Sem mais mistério que ser eu,
Vivendo sempre em sonho obscuro
O sonho obscuro que morreu.

 

1 - 3 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar