Os antigos invocavam as Musas. 
Nós invocamo-nos a nós mesmos. 
Não sei se as Musas apareciam — 
Seria sem dúvida conforme o invocado e a invocação — 
Mas sei que nós não aparecemos. 
   
Quantas vezes me tenho debruçado 
Sobre o poço que me suponho 
E balido «Uh!» p’ra ouvir um eco, 
E não tenho ouvido mais que o visto — 
O vago alvor escuro com que a água resplandece  
Lá na inutilidade do fundo... 
Nenhum eco para mim... 
Só vagamente uma cara, que deve ser a minha, por não poder ser de outro. 
E uma coisa quase invisível, 
Excepto como luminosamente a vejo  
Lá no fundo... 
No silêncio e na luz falsa do fundo... 

Que Musa!...

3 - 1 - 1935

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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