A luz do sol afaga o imenso dia.
Um sopro brando, quasi não de inverno,
Sobriamente os campos inebria.
      Ah, mas o que há de eterno?
Em que é que a alma sem sonhar se fia?

Meu coração nada recebe da hora
Salvo o vácuo de nada receber.
Como criança abandonada, chora,
      Que não sabe o que quer,
Nem por onde ir, nem porque se demora.

E alheio a isto, que sou eu, que brando
O sol de inverno lembra a primavera!
Que afago busca o que em mim ‘stá sonhando.
Que spera quem não ‘spera?
Que fica a quem sabe que está passando?

23 - 1 - 1925

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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