Todo o passado me parece incrível.
Quem é a mim quem foi o que eu já fui?
Rio inconstante, sob meus olhos flui
Minha vida real e impossível.

Através de uma névoa eis-me insensível
Ao que vivi; e que já não se inibe
No que creio que sou, e sinto; e obtive
Ver-me ver quem fui eu e hoje é invisível.

Cismo no que já fiz e me parece
Que incluo quem o fez mas não o sou.
Através da minha alma transparece

O que por mim viveu e se formou...
E um assombro decerto estremece
Em morto ser quem não ressuscitou.
13 - 7 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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