Agora, só, 
que é o meu corpo terra confundida 
na terra desta Serra minha Mãe; 
agora, só, 
a minha voz que sempre cantou mal 
ao Céu se eleva... 

Agora, só, 
que no ventre da Serra minha Mãe repousa 
meu corpo de Poeta, 
de Poeta mudo em vida, por ausente 
do ventre maternal os nove meses; 
agora, só, claríssima se eleva 
a minha voz-louvor, 
a minha voz-carícia a minha Mãe, 
ao Céu... 

Agora, só, 
que os meus lábios são terra de onde nascem 
as moitas de folhado e de alecrim, 
a minha voz saudosa de cantar 
se elevará 
até aonde o Céu tem cor e fim. 
Se elevará a minha voz, perfume 
desprendido, suavíssimo, dos matos que surgiram de mim... 

Agora, só, 
que sou terra na terra misturada, 
que a minha voz é voz de rosmaninho, 
eu poderei tratar por tu 
a meu Irmão Frei Agostinho... 
Agora, só, a meu Irmão, 
que comigo nasceu naquele Dia 
em que ao Céu se entregou, 
ébria de Sol e Maresia, 
nossa Mãe Serra... 


In SERRA-MÃE , Ática, 1991
Sebastião da Gama
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