Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,
se por mais largo espao me enganara!
Se ento a vida msera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, no estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razo era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

Luís Vaz de Camões
[DOCE SONHO SUAVE E SOBERANO]
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