Ah! a angústia, a raiva vil, o desespero 
De não poder confessar
Num tom de grito, num último grito austero 
Meu coração a sangrar!

Falo, e as palavras que digo são um som.
Sofro, e sou eu.
Ah! arrancar à música o segredo do tom
Do grito seu!

Ah! Fúria de a dor nem ter sorte em gritar,  
De o grito não ter
Alcance maior que o silêncio, que volta, do ar 
Na noite sem ser!

15 - 1 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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