1
J se viam chegados junto terra,
Que desejada j de tantos fora,
Que entre as correntes ndicas se encerra
E o Ganges, que no Cu terreno mora.
Ora sus, gente forte, que na guerra
Quereis levar a palma vencedora:
J sois chegados, j tendes diante
A terra de riquezas abundante!

2
A vs, gerao de Luso, digo,
Que to pequena parte sois no mundo;
No digo inda no mundo, mas no amigo
Curral de Quem governa o Cu rotundo;
Vs, a quem no somente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo,
Mas nem cobia ou pouca obedincia
Da Madre que nos Cus est em essncia;

3
Vs, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso no pesais;
Vs, que, custa de vossas vrias mortes,
A Lei da vida eterna dilatais:
Assi do Cu deitadas so as sortes
Que vs, por muito poucos que sejais,
Muito faais na santa Cristandade,
Que tanto, Cristo, exaltas a humildade!

4
Vede’ los Alemes, soberbo gado,
Que por to largos campos se apacenta;
Do sucessor de Pedro rebelado,
Novo pastor e nova seita inventa.
Vede’ lo em feias guerras ocupado,
Que inda co cego error se no contenta,
No contra o superbssimo Otomano,
Mas por sair do jugo soberano.

5
Vede’ lo duro Ingls, que se nomeia
Rei da velha e santssima Cidade,
Que o torpe Ismaelita senhoreia
(Quem viu honra to longe da verdade?).
Entre as Boreais neves se recreia,
Nova maneira faz de Cristandade.
Pera os de Cristo tem a espada nua,
No por tomar a terra que era sua.

6
Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei
A cidade Hieroslima terreste,
Enquanto ele no guarda a santa Lei
Da cidade Hieroslima celeste.
Pois de ti, Galo indigno, que direi?
Que o nome «Cristianssimo» quiseste,
No pera defend-lo nem guard-lo,
Mas pera ser contra ele e derrib-lo!

7
Achas que tens direito em senhorios
De cristos, sendo o teu to largo e tanto,
E no contra o Cinfio e Nilo rios,
Inimigos do antigo nome santo?
Ali se ho-de provar da espada os fios
Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
De Carlos, de Lus, o nome e a terra
Herdaste, e as causas no da justa guerra?

8
Pois que direi daqueles que em delcias,
Que o vil cio no mundo traz consigo,
Gastam as vidas, logram as divcias,
Esquecidos de seu valor antigo?
Nascem da tirania inimiccias,
Que o povo forte tem, de si inimigo.
Contigo, Itlia, falo, j sumersa
Em vcios mil, e de ti mesma adversa.

9
mseros Cristos, pola ventura
Sois os dentes, de Cadmo desparzidos,
Que uns aos outros se do morte dura,
Sendo todos de um ventre produzidos?
No vedes a divina Sepultura
Possuda de Ces, que, sempre unidos,
Vos vm tomar a vossa antiga terra,
Fazendo-se famosos pela guerra?

10
Vedes que tm por uso e por decreto,
Do qual so to inteiros observantes,
Ajuntarem o exrcito inquieto
Contra os povos que so de Cristo amantes.
Entre vs nunca deixa a fera Aleto
De samear ciznias repugnantes.
Olhai se estais seguros de perigos,
Que eles e vs sois vossos inimigos.

11
Se cobia de grandes senhorios
Vos faz ir conquistar terras alheias,
No vedes que Pactolo e Hermo rios
Ambos volvem aurferas areias?
Em Ldia, Assria, lavram de ouro os fios;
frica esconde em si luzentes veias.
Mova-vos j, sequer, riqueza tanta,
Pois mover-vos no pode a Casa Santa.

12
Aquelas invenes, feras e novas,
De instrumentos mortais da artelharia
J devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizncio e de Turquia.
Fazei que torne l s silvestres covas
Dos Cspios montes e da Ctia fria
A Turca gerao, que multiplica
Na polcia da vossa Europa rica.

13
Gregos, Traces, Armnios, Georgianos,
Bradando-vos esto que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcoro (duro tributo!).
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E no queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos mui possantes.

14
Mas, entanto que cegos e sedentos
Andais de vosso sangue, gente insana,
No faltaram Cristos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana.
De frica tem martimos assentos;
na sia mais que todas soberana;
Na quarta parte nova os campos ara;
E, se mais mundo houvera, l chegara.

15
E vejamos, entanto, que acontece
queles to famosos navegantes,
Despois que a branda Vnus enfraquece
O furor vo dos ventos repugnantes;
Despois que a larga terra lhe aparece,
Fim de suas perfias to constantes,
Onde vem samear de Cristo a Lei
E dar novo costume e novo Rei.

16
Tanto que nova terra se chegaram,
Leves embarcaes de pescadores
Acharam, que o caminho lhe mostraram
De Calecu, onde eram moradores.
Pera l logo as proas se inclinaram,
Porque esta era a cidade, das milhores
Do Malabar, milhor, onde vivia
O Rei que a terra toda possua.

17
Alm do Indo jaz e aqum do Gange
Um terreno mui grande e assaz famoso,
Que pela parte Austral o mar abrange
E pera o Norte o Emdio cavernoso.
Jugo de Reis diversos o constrange
A vrias Leis: alguns o vicioso
Maoma, alguns os dolos adoram,
Alguns os animais que entre eles moram.

18
L bem no grande monte que, cortando
To larga terra, toda sia discorre,
Que nomes to diversos vai tomando
Segundo as regies por onde corre,
As fontes saem donde vm manando
Os rios cuja gro corrente morre
No mar ndico, e cercam todo o peso
Do terreno, fazendo-o quersoneso.

19
Entre um e o outro rio, em grande espao
Sai da larga terra ũa longa ponta,
Quase piramidal, que, no regao
Do mar, com Ceilo nsula confronta.
E junto donde nasce o largo brao
Gangtico, o rumor antigo conta
Que os vizinhos, da terra moradores,
Do cheiro se mantm das finas flores.

20
Mas agora, de nomes e de usana
Novos e vrios so os habitantes:
Os Deliis, os Patanes, que em possana
De terra e gente, so mais abundantes;
Decaniis, Oris, que a esperana
Tem de sua salvao nas ressonantes
guas do Gange, e a terra de Bengala,
Frtil de sorte que outra no lhe iguala;

21
O Reino de Cambaia belicoso
(Dizem que foi de Poro, Rei potente);
O Reino de Narsinga, poderoso
Mais de ouro e pedras que de forte gente.
Aqui se enxerga, l do mar undoso,
Um monte alto, que corre longamente,
Servindo ao Malabar de forte muro,
Com que do Canar vive seguro.

22
Da terra os naturais lhe chamam Gate,
Do p do qual, pequena quantidade
Se estende ũa fralda estreita, que combate
Do mar a natural ferocidade.
Aqui de outras cidades, sem debate,
Calecu tem a ilustre dignidade
De cabea de Imprio, rica e bela;
Samorim se intitula o senhor dela.

23
Chegada a frota ao rico senhorio,
Um Portugus, mandado, logo parte
A fazer sabedor o Rei gentio
Da vinda sua a to remota parte.
Entrando o mensageiro pelo rio
Que ali nas ondas entra, a no vista arte,
A cor, o gesto estranho, o trajo novo,
Fez concorrer a v-lo todo o povo.

24
Entre a gente que a v-lo concorria,
Se chega um Mahometa, que nascido
Fora na regio da Berberia,
L onde fora Anteu obedecido;
(Ou, pela vezinhana, j teria
O Reino Lusitano conhecido,
Ou foi j assinalado de seu ferro;
Fortuna o trouxe a to longo desterro).

25
Em vendo o mensageiro, com jocundo
Rosto, como quem sabe a lngua Hispana,
Lhe disse:— «Quem te trouxe a estoutro mundo,
To longe da tua ptria Lusitana?»
— «Abrindo (lhe responde) o mar profundo,
Por onde nunca veio gente humana;
Vimos buscar do Indo a gro corrente,
Por onde a Lei divina se acrecente.»

26
Espantado ficou da gro viagem
O Mouro, que Monaide se chamava,
Ouvindo as opresses que, na passagem
Do mar, o Lusitano lhe contava;
Mas, vendo, enfim, que a fora da mensagem
S pera o Rei da terra relevava,
Lhe diz que estava fora da cidade,
Mas de caminho pouca quantidade;

27
E que, entanto que a nova lhe chegasse
De sua estranha vinda, se queria,
Na sua pobre casa repousasse
E do manjar da terra comeria;
E, despois que se um pouco recreasse,
Co ele pera a armada tornaria,
Que alegria no pode ser tamanha
Que achar gente vezinha em terra estranha.

28
O Portugus aceita de vontade
O que o ledo Monaide lhe oferece;
Como se longa fora j a amizade,
Co ele come e bebe e lhe obedece.
Ambos se tornam logo da cidade
Pera a frota, que o Mouro bem conhece.
Sobem capitaina, e toda a gente
Monaide recebeu benignamente.

29
O Capito o abraa, em cabo ledo,
Ouvindo clara a lngua de Castela;
Junto de si o assenta e, pronto e quedo,
Pela terra pergunta e cousas dela.
Qual se ajuntava em Rdope o arvoredo,
S por ouvir o amante da donzela
Eurdice, tocando a lira de ouro,
Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.

30
Ele comea:— « gente, que a Natura
Vizinha fez de meu paterno ninho,
Que destino to grande ou que ventura
Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
No sem causa, no, oculta e escura,
Vir do longinco Tejo e ignoto Minho,
Por mares nunca doutro lenho arados,
A Reinos to remotos e apartados.

31
«Deus, por certo, vos traz, porque pretende
Algum servio seu por vs obrado;
Por isso s vos guia e vos defende
Dos imigos, do mar, do vento irado.
Sabei que estais na ndia, onde se estende
Diverso povo, rico e prosperado
De ouro luzente e fina pedraria,
Cheiro suave, ardente especiaria.

32
«Esta provncia, cujo porto agora
Tomado tendes, Malabar se chama;
Do culto antigo os dolos adora,
Que c por estas partes se derrama;
De diversos Reis , mas dum s fora
Noutro tempo, segundo a antiga fama;
Saram Perimal foi derradeiro
Rei que este Reino teve unido e inteiro.

33
«Porm, como a esta terra ento viessem
De l do seio Arbico outras gentes
Que o culto Mahomtico trouxessem,
No qual me instituram meus parentes,
Sucedeu que, pregando, convertessem
O Perimal, de sbios e eloquentes;
Fazem-lhe a Lei tomar com fervor tanto,
Que prs[s]ups de nela morrer santo.

34
«Naus arma e nelas mete, curioso,
Mercadoria que oferea rica,
Pera ir nelas a ser religioso
Onde o Profeta jaz que a Lei pubrica.
Antes que parta, o Reino poderoso
Cos seus reparte, porque no lhe fica
Herdeiro prprio; faz os mais aceitos
Ricos, de pobres, livres, de sujeitos.

35
«A um Cochim e a outro Cananor,
A qual Chale, a qual a Ilha da Pimenta,
A qual Coulo, a qual d Cranganor,
E os mais, a quem o mais serve e contenta.
Um s moo, a quem tinha muito amor,
Despois que tudo deu, se lhe apresenta:
Pera este Calecu somente fica,
Cidade j por trato nobre e rica.

36
«Esta lhe d, co ttulo excelente
De Emperador, que sobre os outros mande.
Isto feito, se parte diligente
Pera onde em santa vida acabe e ande.
E daqui fica o nome de potente
Samori, mais que todos digno e grande,
Ao moo e descendentes, donde vem
Este que agora o Imprio manda e tem.

37
«A Lei da gente toda, rica e pobre,
De fbulas composta se imagina.
Andam nus e somente um pano cobre
As partes que a cobrir Natura insina.
Dous modos h de gente, porque a nobre
Naires chamados so, e a menos dina
Poles tem por nome, a quem obriga
A Lei no mesturar a casta antiga;

38
«Porque os que usaram sempre um mesmo ofcio,
De outro no podem receber consorte;
Nem os filhos tero outro exerccio
Seno o de seus antepassados, at morte.
Pera os Naires , certo, grande vcio
Destes serem tocados, de tal sorte,
Que, quando algum se toca porventura,
Com cerimnias mil se alimpa e apura.

39
«Desta sorte o Judaico povo antigo
No tocava na gente de Samria.
Mais estranhezas inda das que digo
Nesta terra vereis de usana vria.
Os Naires ss so dados ao perigo
Das armas; ss defendem da contrria
Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
Na esquerda a adarga e na direita a espada.

40
«Brmenes so os seus religiosos,
Nome antigo e de grande preminncia;
Observam os preceitos to famosos
Dum que primeiro ps nome cincia;
No matam cousa viva e, temerosos,
Das carnes tm grandssima abstinncia.
Somente no venreo ajuntamento
Tm mais licena e menos regimento.

41
«Gerais so as mulheres, mas smente
Pera os da gerao de seus maridos.
Ditosa condio, ditosa gente,
Que no so de cimes ofendidos!
Estes e outros costumes variamente
So pelos Malabares admitidos.
A terra grossa em trato, em tudo aquilo
Que as ondas podem dar, da China ao Nilo.»

42
Assi contava o Mouro; mas vagando
Andava a fama j, pela cidade,
Da vinda desta gente estranha, quando
O Rei saber mandava da verdade.
J vinham pelas ruas caminhando,
Rodeados de todo sexo e idade,
Os principais, que o Rei buscar mandara
O Capito da armada que chegara.

43
Mas ele, que do Rei j tem licena
Pera desembarcar, acompanhado
Dos nobres Portugueses, sem detena
Parte, de ricos panos adornado.
Das cores a fermosa diferena
A vista alegra ao povo alvoroado;
O remo compassado fere frio
Agora o mar, despois o fresco rio.

44
Na praia um regedor do Reino estava
Que, na sua lngua, Catual se chama,
Rodeado de Naires, que esperava
Com desusada festa o nobre Gama.
J na terra, nos braos o levava
E num porttil leito ũa rica cama
Lhe oferece em que v, costume usado,
Que nos ombros dos homens levado.

45
Destarte o Malabar, destarte o Luso,
Caminhavam l pera onde o Rei o espera.
Os outros Portugueses vo ao uso
Que infantaria segue, esquadra fera.
O povo que concorre vai confuso
De ver a gente estranha, e bem quisera
Perguntar; mas, no tempo j passado,
Na Torre de Babel lhe foi vedado.

46
O Gama e o Catual iam falando
Nas cousas que lhe o tempo oferecia;
Monaide, entr’ eles, vai interpretando
As palavras que de ambos entendia.
Assi pela cidade caminhando,
Onde ũa rica fbrica se erguia
De um sumptuoso templo j chegavam,
Pelas portas do qual juntos entravam.

47
Ali esto das Deidades as figuras,
Esculpidas em pau e em pedra fria,
Vrios de gestos, vrios de pinturas,
A segundo o Demnio lhe fingia.
Vem-se as abominveis esculturas,
Qual a Quimera em membros se varia.
Os cristos olhos, a ver Deus usados
Em forma humana, esto maravilhados.

48
Um na cabea cornos esculpidos,
Qual Jpiter Amon em Lbia estava;
Outro num corpo rostos tinha unidos,
Bem como o antigo Jano se pintava;
Outro, com muitos braos divididos,
A Briareu parece que imitava;
Outro fronte canina tem de fora,
Qual Anbis Menftico se adora.

49
Aqui, feita do brbaro Gentio
A supersticiosa adorao,
Direitos vo, sem outro algum desvio,
Pera onde estava o Rei do povo vo.
Engrossando-se vai da gente o fio
Cos que vm ver o estranho Capito.
Esto pelos telhados e janelas
Velhos e moos, donas e donzelas.

50
J chegam perto, e no [com] passos lentos,
Dos jardins odorferos fermosos,
Que em si escondem os rgios apousentos,
Altos de torres no, mas sumptuosos.
Edificam-se os nobres seus assentos
Por entre os arvoredos deleitosos.
Assi vivem os Reis daquela gente,
No campo e na cidade juntamente.


51
Pelos portais da cerca a sutileza
Se enxerga da Dedlea facultade,
Em figuras mostrando, por nobreza,
Da ndia a mais remota antiguidade.
Afiguradas vo com tal viveza
As histrias daquela antiga idade,
Que quem delas tiver notcia inteira,
Pela sombra conhece a verdadeira.

52
Estava um grande exrcito, que pisa
A terra Oriental que o Hidaspe lava;
Rege-o um capito de fronte lisa,
Que com frondentes tirsos pelejava
(Por ele edificada estava Nisa
Nas ribeiras do rio que manava),
To prprio, que, se ali estiver Semele,
Dir, por certo, que seu filho aquele.

53
Mais avante, bebendo, seca o rio
Mui grande multido da Assria gente,
Sujeita a feminino senhorio
De ũa to bela como incontinente.
Ali tem, junto ao lado nunca frio,
Esculpido o feroz ginete ardente
Com quem teria o filho competncia.
Amor nefando, bruta incontinncia!

54
Daqui mais apartadas, tremulavam
As bandeiras de Grcia gloriosas
(Terceira Monarquia), e sojugavam
At as guas Gangticas undosas.
Dum capito mancebo se guiavam,
De palmas rodeado valerosas,
Que j no de Filipo, mas, sem falta,
De prognie de Jpiter se exalta.

55
Os Portugueses vendo estas memrias,
Dizia o Catual ao Capito:
— «Tempo cedo vir que outras vitrias
Estas, que agora olhais, abatero.
Aqui se escrevero novas histrias
Por gentes estrangeiras que viro;
Que os nossos sbios magos o alcanaram,
Quando o tempo futuro especularam.

56
E diz-lhe mais a mgica cincia
Que, pera se evitar fora tamanha,
No valer dos homens resistncia,
Que contra o Cu no val da gente manha;
Mas tambm diz que a blica excelncia,
Nas armas e na paz, da gente estranha
Ser tal, que ser no mundo ouvido
O vencedor por glria do vencido.»

57
Assi falando, entravam j na sala
Onde aquele potente Emperador
Nũa camilha jaz, que no se iguala
De outra algũa no preo e no lavor.
No recostado gesto se assinala
Um venerando e prspero senhor;
Um pano de ouro cinge, e na cabea
De preciosas gemas se aderea.

58
Bem junto dele, um velho reverente,
Cos giolhos no cho, de quando em quando
Lhe dava a verde folha da erva ardente,
Que a seu costume estava ruminando.
Um Brmene, pessoa preminente,
Pera o Gama vem com passo brando,
Pera que ao grande Prncipe o apresente,
Que diante lhe acena que se assente.

59
Sentado o Gama junto ao rico leito,
Os seus mais afastados, pronto em vista
Estava o Samori no trajo e jeito
Da gente, nunca de antes dele vista.
Lanando a grave voz do sbio peito,
Que grande autoridade logo aquista
Na opinio do Rei e do povo todo,
O Capito lhe fala deste modo:

60
— «Um grande Rei, de l das partes onde
O Cu volbil, com perptua roda,
Da terra a luz solar co a Terra esconde,
Tingindo, a que deixou, de escura noda,
Ouvindo do rumor que l responde
O eco, como em ti da ndia toda
O principado est e a majestade,
Vnculo quer contigo de amizade.

61
«E por longos rodeios a ti manda
Por te fazer saber que tudo aquilo
Que sobre o mar, que sobre as terras anda,
De riquezas, de l do Tejo ao Nilo,
E desde a fria plaga de Gelanda
At bem donde o Sol no muda o estilo
Nos dias, sobre a gente de Etipia,
Tudo tem no seu Reino em grande cpia.

62
«E, se queres, com pactos e lianas
De paz e de amizade, sacra e nua,
Comrcio consentir das abundanas
Das fazendas da terra sua e tua,
Por que cream as rendas e abastanas
(Por quem a gente mais trabalha e sua)
De vossos Reinos, ser certamente
De ti proveito, e dele glria ingente.

63
«E, sendo assi que o n desta amizade
Entre vs firmemente permanea,
Estar pronto a toda a adversidade
Que por guerra a teu Reino se oferea,
Com gente, armas e naus, de qualidade
Que por irmo te tenha e te conhea;
E da vontade em ti sobre isto posta
Me ds a mi certssima resposta.»

64
Tal embaxada dava o Capito,
A quem o Rei gentio respondia
Que, em ver embaxadores de nao
To remota, gro glria recebia;
Mas neste caso a ltima teno
Com os de seu conselho tomaria,
Informando-se certo de quem era
O Rei e a gente e terra que dissera;

65
E que, entanto, podia do trabalho
Passado ir repousar; e em tempo breve
Daria a seu despacho um justo talho,
Com que a seu Rei reposta alegre leve.
J nisto punha a noite o usado atalho
As humanas canseiras, por que ceve
De doce sono os membros trabalhados,
Os olhos ocupando, ao cio dados.

66
Agasalhados foram juntamente
O Gama e Portugueses no apousento
Do nobre Regedor da ndica gente,
Com festas e geral contentamento.
O Catual, no cargo diligente
De seu Rei, tinha j por regimento
Saber da gente estranha, donde vinha,
Que costumes, que Lei, que terra tinha.

67
Tanto que os gneos carros do fermoso
Mancebo Dlio viu, que a luz renova,
Manda chamar Monaide, desejoso
De poder-se informar da gente nova.
J lhe pergunta, pronto e curioso,
Se tem notcia inteira e certa prova
Dos estranhos, quem so; que ouvido tinha
Que gente de sua ptria mui vizinha;

68
Que particularmente ali lhe desse
Informao mui larga, pois fazia
Nisso servio ao Rei, por que soubesse
O que neste negcio se faria.
Monaide torna:— «Posto que eu quisesse
Dizer-te disto mais, no saberia;
Somente sei que gente l de Espanha,
Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.

69
«Tem a Lei dum Profeta que gerado
Foi sem fazer na carne detrimento
Da Me, tal que por Bafo est aprovado
Do Deus que tem do Mundo o regimento.
O que entre meus antigos vulgado
Deles, que o valor sanguinolento
Das armas no seu brao resplandece;
O que em nossos passados se parece.

70
«Porque eles, com virtude sobre-humana,
Os deitaram dos campos abundosos
Do rico Tejo e fresco Guadiana,
Com feitos memorveis e famosos;
E no contentes inda, e na Africana
Parte, cortando os mares procelosos,
Nos no querem deixar viver seguros,
Tomando-nos cidades e altos muros.

71
«No menos tem mostrado esforo e manha
Em quaisquer outras guerras que aconteam,
Ou das gentes belgeras de Espanha,
Ou l dalguns que do Pirene deam.
Assi que nunca, enfim, com lana estranha
Se tem que por vencidos se conheam;
Nem se sabe inda, no, te afirmo e asselo,
Pera estes Anbais nenhum Marcelo.

72
«E, s’ esta informao no for inteira
Tanto quanto convm, deles pretende
Informar-te, que gente verdadeira,
A quem mais falsidade enoja e ofende.
Vai ver-lhe a frota, as armas e a maneira
Do fundido metal que tudo rende,
E folgars de veres a polcia
Portuguesa, na paz e na milcia.»

73
J com desejos o Idolatra ardia
De ver isto que o Mouro lhe contava.
Manda esquipar batis, que ir ver queria
Os lenhos em que o Gama navegava.
Ambos partem da praia, a quem seguia
A Naira gerao que o mar coalhava.
capitaina sobem, forte e bela,
Onde Paulo os recebe a bordo dela.

74
Purpreos so os toldos, e as bandeiras
Do rico fio so que o bicho gera;
Nelas esto pintadas as guerreiras
Obras que o forte brao j fizera;
Batalhas tm campais aventureiras,
Desafios cruis, pintura fera,
Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
A tento nela os olhos apacenta.

75
Pelo que v pergunta; mas o Gama
Lhe pedia primeiro que se assente
E que aquele deleite que tanto ama
A seita Epicureia experimente.
Dos espumantes vasos se derrama
O licor que No mostrara gente;
Mas comer o Gentio no pretende,
Que a seita que seguia lho defende.

76
A trombeta, que, em paz, no pensamento
Imagem faz de guerra, rompe os ares;
Co fogo o diablico instrumento
Se faz ouvir no fundo l dos mares.
Tudo o Gentio nota; mas o intento
Mostrava sempre ter nos singulares
Feitos dos homens que, em retrato breve,
A muda poesia ali descreve.

77
Ala-se em p, co ele o Gama junto,
Coelho, de outra parte, e o Mauritano;
Os olhos pe no blico trasunto
De um velho branco, aspeito venerando,
Cujo nome no pode ser defunto,
Enquanto houver no mundo trato humano:
No trajo a Grega usana est perfeita;
Um ramo, por insgnia, na direita.

78
Um ramo na mo tinha... Mas, cego,
Eu, que cometo, insano e temerrio,
Sem vs, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho to rduo, longo e vrio!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento to contrrio,
Que, se no me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.

79
Olhai que h tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
Agora o mar, agora exprimentando
Os perigos Mavrcios inumanos,
Qual Cnace, que morte se condena,
Nũa mo sempre a espada e noutra a pena;

80
Agora, com pobreza avorrecida,
Por hospcios alheios degradado;
Agora, da esperana j adquirida,
De novo, mais que nunca, derribado;
Agora, s costas escapando a vida,
Que dum fio pendia to delgado,
Que no menos milagre foi salvar-se
Que pera o Rei judaico acrecentar-se.

81
E ainda, Ninfas minhas, no bastava
Que tamanhas misrias me cercassem,
Seno que aqueles que eu cantando andava
Tal prmio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em to duro estado me deitaram!

82
Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memria,
Que merecerem ter eterna glria!

83
Pois logo, em tantos males, forado
Que s vosso favor me no falea,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandea:
Dai-mo vs ss, que eu tenho j jurado
Que no no empregue em quem o no merea,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de no ser agradecido.

84
Nem creiais, Ninfas, no, que fama desse
A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu prprio interesse,
Imigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso, que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
S por poder com torpes exerccios
Usar mais largamente de seus vcios;

85
Nenhum que use de seu poder bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.
Nem, Camenas, tambm cuideis que cante
Quem, com hbito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofcio novo,
A despir e roubar o pobre povo!

86
Nem quem acha que justo e que direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E no acha que justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razes aprende, e cuida que prudente,
Pera taxar, com mo rapace e escassa,
Os trabalhos alheios que no passa.

87
Aqueles ss direi que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde perdendo-a, em fama a dilataram,
To bem de suas obras merecida.
Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobraro a fria concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.

 

Luís Vaz de Camões
OS LUSíADAS
Canto VII
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