O dia entra no quarto 
pela janela fechada 
apagando as sombras onde 
a alma se ocultava. 

Aproximam-se as horas do silêncio 
e do ruído, e fico só de novo. 
Abro a janela e fecho alguma coisa 
(provavelmente a infância) dentro d’alma. 

Talvez não passe tudo de memória, 
de coisas de que alguém se recordasse, 
a minha vida, os dias e as noites, 
e a minha própria infância me faltasse. 

Talvez eu seja um vago sentimento 
mal aflorando o coração d’alguém 
à hora breve em que o dia vem 
em algum sítio só de pensamento. 

Lá fora ouvem-se vozes acordando, 
motores em marcha vibram, a luz arde, 
e aos poucos a vida vai ficando 
sensação e exterioridade. 

No quarto ao lado as filhas falam alto. 
E dou comigo procurando rimas. 
— E a alma? — Mas por esta altura 
já tudo e eu próprio somos literatura... 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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