Os reis que fora quando o sonho o tinha
Pesavam já em sua fronte baixa.
E a sensação de nunca haver rainha
Fechava-lhe a alma numa caixa.

Tivera, como todos quantos são,
Um reinado e um reino e um diadema,
Mas a verdade é um ovo que, no chão
Caindo, espalha clara e gema.

E assim o espio, no café do imbele
Sorvendo absorto a chávena em que o molho,
E não deixo de olhá-lo, não vá ele
Olhar-me a mim como eu o olho...

24 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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