Releio, triste e com um tédio feio,
Meus versos feitos nestes quatro dias.
Quasi irritadamente leio...
Que coisas ocas, que coisas frias!

Com que febre contudo os escrevi
Com que imediata suposição
De que escrevia o que deveras vi
Nesse momento no meu coração...

Mas que cordéis desatados
Esses versos, os bocados
De pão de uma refeição
Em que não prestava o pão!...

E é com isto que sou poeta?
Será com estas linhas a rimar
Que serei amanhã artista ou esteta?
Nunca serei senão a seta
Que os Deuses não souberam atirar...

20 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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