Minha mulher, a solidão

Consegue que eu não seja triste.

Ah, que bom é ao coração

Ter este lar que não existe! 

 

Recolho a não ouvir ninguém,

Não sofro o insulto de um carinho,

E falo alto sem que haja alguém:

Nascem-me os versos no caminho.

 

Senhor, se há bem que o céu conceda

Submisso à opressão do Fado,

Dá-me eu ser só, ― veste de seda ―,

E falar só ― leque agitado.

27 - 8 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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