Penso visões, sombras que nem sonhando
Posso ter como sendo não de sonho,
Figuras de perfil nunca risonho,
Com mão com gestos de quem está chorando.

Por mais que ouse querer um sonho brando
Erra-se-me, ao sonhá-lo, p’ra medonho,
Auroras de minh’alma, que tristonho
Poente é o vosso horizonte miserando.

O sonho espelha a vida interior
E a vida interior é toda a vida
Sim, mesmo aquela que tem lugar e cor

De estar fora; aos que têm a dor grande por qu’rida
A vida é um sonho  de dor
E o sonho uma outra dolorosa vida.

 

 espaço deixado em branco pelo autor

4 - 7 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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