Era um país de charcos,
Uma noite de juncos,
Sem luz, sem bem, sem barcos,
Sem muros e sem marcos.

Como se, feito o mundo,
Aquilo ali ficasse
Excluído, infecundo,
Num silêncio profundo.

Silêncio? Não: há um ruído,
Um sussurro impossível,
Que se ouve sem ouvido,
Ouvido com o olvido…

Charcos luzindo sós
Sem luar ou astro a dar-lhes
Esse brilho por vós.

E nós — quem somos nós?

 

 

7 - 9 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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