Gozo os campos sem reparar para eles.  
Perguntas-me por que os gozo.
Porque os gozo, respondo.
Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente
E ter uma noção do seu perfume nas nossas ideias mais apagadas. 
Quando reparo, não gozo: vejo.
Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,  
Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos 
À dureza fresca da terra cheirosa e irregular;
E alguma cousa dos ruídos indistintos das coisas a existir,
E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,
E só um resto de vida ouve.

 

In Poemas Inconjuntos


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001
Alberto Caeiro
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