To suave, to fresca e to fermosa,
nunca no Cu saiu
a Aurora no princpio do Vero,
as flores dando a graa costumada,
como a fermosa, mansa fera, quando
um pensamento vivo m'inspirou,
por quem me desconheo.

Bonina pudibunda ou fresca rosa
nunca no campo abriu,
quando os raios do Sol no Touro esto,
de cores diferentes esmaltada,
como esta flor que, os olhos inclinando,
o sofrimento triste costumou
pena que padeo.

Ligeira, bela Ninfa, linda, irosa,
no creio que seguiu
Stiro, cujo brando corao
de amores comovesse fera irada,
que assi fosse fugindo e desprezando
este tormento, onde Amor mostrou
to prspero comeo.

Nunca, enfim, cousa bela e rigorosa
Natura produziu
que iguale quela forma e condio,
que as dores em que vivo estima em nada.
Mas com to doce gesto, irado e brando,
o sentimento e a vida me enlevou
que a pena lhe agradeo.

Bem cuidei de exaltar em verso ou prosa
aquilo que a alma viu
antre a doce dureza e mansido,
primores de beleza desusada:
mas, quando quis voar ao Cu, cantando,
entendimento e engenho me cegou
luz de to alto preo.

Naquela alta pureza deleitosa
que ao mundo se encobriu
e nos olhos anglicos, que so
senhores desta vida destinada,
e naqueles cabelos que, soltando
ao manso vento, a vida me enredou,
me alegro e entristeo.

Saudades e suspeita perigosa,
que Amor constituiu
por castigo daqueles que se vo;
temores, penas d'alma desprezada,
fera esquivana, que me vai tirando
o mantimento que me sustentou,
a tudo me ofereo.

 

Luís Vaz de Camões
[TÃO SUAVE TÃO FRESCA E TÃO FERMOSA]
Voltar