Alvejava de neve outrora a rosa,
Nem como agora, doce recendia;
Baixo voava Amor sem tento um dia,
          E na rama espinhosa
De sua flor virgínea se feria.
Do sangue divina! gota amorosa
Da ligeira ferida lhe corria,
E as flores da roseira onde caía
Tomavam do encarnado a cor lustrosa.
          Agora formosa
          A rúbida flor
          Recorda de Amor
          A chaga ditosa.

Para os braços da mãe voou chorando;
Um beijo lhe acalmou penas e ardores:
E tão doce o remédio achou das dores,
Que Amor só desejou de quando em quando
          Que assim penando,
          Com seus clamores
          Novos favores
          Fosse alcançando.

Súbito voa, pelos ares fende;
As rosas viu de sua dor trajadas,
E que só de suas glórias namoradas
Nada dissessem com razão se ofende:

          A mão lhe estende,
          E delicioso
          Cheiro amoroso
          Nelas recende.

Vós que as rosas gentis buscais, amantes,
          Nos jardins do prazer,
E, em vez da flor, espinhos penetrantes
          Só chegais acolher,
Resignados sofrei, sede constantes,
          Que a desventura,
          Que a mágoa e dor
          Sempre em doçura
          Converte Amor.

 


In Lírica de João Mínimo
Almeida Garrett
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