Nunca me senti a tal ponto do mundo rejeitado.
Dum lado os sãos, doutro o coxo, o cego, o aleijado;
Dum lado os sadios, os bons, os fortes, da vida a perfeição,
Doutro os escravos do génio, do crime, da alucinação.
Ergam prisões, hospitais, manicómios. Dum lado os contentes,
Doutro os débeis, os estúpidos, os loucos e doentes.
Tão fundo o fosso entre mim e os homens eu jamais senti.
Será idiotice, loucura, crime ou génio — esta dor aqui?
Senti-o hoje, em pleno, para não mais esquecer:
Sou um excluído — torturador e torturado no inferno do meu ser.

Mas não pedi para viver nem no mal que me coube fui ouvido,
Não tive poder nem culpa de ter nascido.

Assim meu canto sem esperança ou alegria, abandonado,
Para que os homens aprendam — ou riam — o que é um peito rasgado;
Um canto só mistério, só símbolos, contradições numa ignóbil dança
Que é loucura completa, nem sequer ignorância;
Como da tortura da alma, do ser humano o abismo
E nunca apenas a dúvida, mas puro e louco egotismo;
Canto do mal, do ódio, da revolta, do amor o canto
À Natureza-Mãe, terra a meus pés e céu o manto;
Canto do ódio aos costumes, credos, convenções, instituições;
Canto de loucura que não serve humanas prostituições;
Canto de quem melhor estaria morto, canto de um rejeitado,
Canto de quem inferno e terra, em pacto, têm troçado.

Silêncio! Que os sãos fiquem daí e os loucos deste lado.

 

1907

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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