A coisa estranha e muda em todo o corpo, 
Que está ali, ebúrnea, no caixão, 
O corpo humano que não é corpo humano 
Que ali se cala em todo o ambiente; 
O cais deserto que ali aguarda o incógnito 
O assombro álgido ali entreabrindo 
A porta suprema e invisível; 
O nexo incompreensível 
Entre a energia e a vida, 
Ali janela para a noite infinita... 
Ele — o cadáver do outro, 
Evoca-me do futuro 
Eu próprio assim, eu mesmo assim... 

E embandeiro em arco a negro as minhas esperanças 
Minha fé cambaleia como uma paisagem de bêbedo, 
Meus projectos tocam um muro infinito até infinito. 


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In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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