1. 
Sonho sem fim nem fundo.
Durmo, fruste e infecundo.
Deus dorme, e é isso o mundo.

Mas se eu dormir também
Um sono qual Deus tem
Talvez eu sonhe o Bem —

O Bem do Mal que existe.
Esse sonho, que avisto
Em mim, chama-se o Cristo.

2.
Não foi em cruz erguida
Num calvário da vida,
Mas numa Cruz vivida

Que foi crucificado
O que foi, em seu lado,
Por lança golpeado.

E desse coração
Agua e sangue virão,
Mas a Verdade não...

3.
Só quando já descido
De a onde foi subido
Para ser escarnecido,

Seu corpo for baixar
Onde se há-de enterrar
O haverei de encontrar

Água o seu ser ausente,
Sangue o que há de presente
Na ausência, eternamente.


4.
Desde que o mundo foi
No mundo à alma dói
O que ao mundo destrói,

Desde que a vida dura
Tem a vida amargura
De ser mortal e impura.

E assim na Cruz se pôs
A vida, para que a sós
Seja o melhor de nós.

5.
O túmulo fechado
Aberto foi achado
E vazio encontrado.

Meu coração também
É o túmulo do Bem
Que a minha Alma não tem.

Mas há um anjo a me ver
E a meu lado a dizer
Que cegue e saiba crer.

2 - 7 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar