Brisa sem ser da aurora,
Só por nascer o dia,
A um coração que chora
Não trazes alegria
Mas a dor vai-se embora.

Dizes que se conhece
Pelo dia que vem
Que tudo passa e esquece
E que a manhã também.

Se um dia nasce a ‘sperança
Nasce dele também.
E como uma criança.
Talvez não traga o bem.
Mas a aurora não cansa.

Ah, enquanto há o momento
Em que inda não há nada,
Sossegue o pensamento
E a alma durma acordada
Sob o embalar do vent&

Tão fresco sobre a face
E as pálpebras de sono,
Se isto nunca passasse!
Depois há o dia, o dono:
Este dia que nasce.

24 - 7 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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