O ouro do fim da tarde paira
Na vaga névoa do horizonte.
Não sei que sonho me desvaira,
Que lembrança tenho defronte

Do que de mim olha quem fui
Em horas de outro ser do que eu...
E um rio de □ flui
Só porque aqui entardeceu.
 
Recordo... Os mármores, o tédio,
Sempre o mesmo repuxo frio,
A vida sempre sem remédio
O gesto □ sempre vazio.

As queixas do sujeito povo,
O alarme, as legiões marchando
Tudo no mesmo tédio, novo
Só por memória □ quando

Por eu ser sonhador e inútil,
Rotos os últimos baluartes,
Ruiu o Império findo e fútil
Na hora cheia de estandartes.

25 - 6 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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