Às três da madrugada eu dormia sem sonhos.
Minha mulher dormia a meu lado. Eu tinha 
uma das mãos pousada sobre a sua coxa. 

Uma lua de outono brilhava sobre as ruas; 
um ar agreste preparava as noites para o inverno.

Às três da madrugada os companheiros 
dormiam quase todos. Um deles, porém, 
regressava, fatigado, de um trabalho nocturno. 

Era a hora dos fogos-fátuos sobre as campas; 
a hora em que os exilados buscam o sono em comprimidos. 

Às três da madrugada sua mulher ainda velava. 
Embrulhada num xaile tinha um livro entre as mãos; i
nsone, acendera a luz havia meia hora. 

Na sala o interrogatório atravessava o tempo; 
lâmpadas de mil vátios tornavam a vida irrespirável. 

Às três da madrugada o coração fraquejou 
e os dois comissários ficaram perante um homem morto 
e dois cinzeiros com trinta pontas de cigarros. 


In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
MORTE NO INTERROGATÓRIO
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