Num sonho d´ris morto a oiro e brasa,
Vm-me lembranas doutro Tempo azul
Que me oscilava entre vus de tule —
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Ento os meus sentidos eram cores,
Nasciam num jardim as minhas nsias,
Havia na minha alma Outras Distncias -
Distncias que o segui-las era flores...

Caa Ouro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me...
— Noites-lagoas, como reis belas
Sob terraos-lis de recordar-Me...

Idade acorde d´Inter-sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz — anseios de Princesa nua...

Balastres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume...
Domnio inexprimvel d´pio e lume
Que nunca mais, em cor, hei-de habitar...

Tapetes de outras Prsias mais Oriente...
Cortinados de Chinas mais marfim...
ureos Templos de ritos de cetim...
Fontes correndo sombra, mansamente...

Zimbrios panthons de nostalgias,
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
Escadas de honra, escadas s, ao ar...
Novas Bizncios-Alma, outras Turquias...

Lembranas fluidas... cinza de brocado...
Irrealidade anil que em mim ondeia...
— Ao meu redor eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia...


Paris, 30 de junho de 1914
Mário de Sá-Carneiro
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