Senhora, quando imagino
o divino
vosso gesto, claro e belo,
de alguma hora merec-lo
me conheo por indino;
que se sento
ser altivo o pensamento
que me inclinou
vejo que amor vos destina
para mor merecimento.

Porque vosso lindo aspeito
to perfeito
que, na mais pequena parte,
no pode, por nenhuma arte,
compreender o humano peito.
Nem me espanta
porque, se tivestes tanta
formosura,
vossa suprema ventura
mais alta vos levanta.

Porm, se meus pensamentos
nos tormentos
quiserdes experimentar,
bem o podeis comparar
com vossos merecimentos:
que se ordena
Amor em parte pequena
opinio,
crede que meu corao
incapaz de grande pena.

E se cuidais porventura
que a Natura
contm outro regimento,
sabei que meu pensamento
em vosso gesto se apura.
Nem me engano,
que mudei o ser de humano
como pude
em divino, por virtude
de gesto to soberano.

Assim que, feito imortal,
ou mortal,
outro nome tomarei
de ser vosso, pois mudei
o costume natural.
Tambm vs,
pelo bem que em vs se ps,
sereis digna
de serdes por vs divina;
mas eu divino por vs.

Enfim, que desta maneira,
a f inteira
que no peito Amor me cria,
vereis crescer cada dia,
por que sempre mais vos queira
a fineza
de um amor que nesta empresa
me acompanha:
ficar sendo tamanha
como vossa gentileza.

Luís Vaz de Camões
[SENHORA QUANDO IMAGINO]
Voltar