Era uma criança pobre a passar
Tão pequena, e um seu olhar
Pousou em mim, pousou em vão,
Porque eu ia passando, pensando,
Em grandes coisas meditando;
Deixara em casa o coração.

Mas depois acordei, e vi
Que não sentia, que não senti.
Eu creio em Deus e em Cristo, mas não
Tive ali o meu coração.

Porque é que eu penso tanto e ando
Alheio a quanto vai pensando
No mundo, e é criança até?
Porque é que eu tenho 'sperança e fé
E não sou nada do que sou?
Porque é que a criança passou
Sem que eu sequer a olhasse bem?
Meu coração não é ninguém!
Ah, o crime de não ter sentido
Naquele olhar pobre e perdido
Para os meus olhos sua dor!
E eu sou poeta e pensador!

11 - 12 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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