Nunca encontrámos 
o lugar onde o amor se forma.
 
Tentámos, aceitando os desencontros, 
dançámos em torno, 
arrepiámos uma breve carícia, 
separámo-nos 
sem descobrir o que haveria a descobrir, 
o que haveria a atravessar: 
uma montanha, um túnel, 
ou mina ou arco 
de uma ponte. 

Agora contemplo uma cama 
vazia 
flutuando numa barragem 
longe do lugar que poderíamos ser. 

Muitas coisas se partilharam, 
as palavras não eram pedras, 
o vento alguma vez 
nos juntou os cabelos. 
Nunca encontrámos 
o lugar onde o amor se arma. 

Foram pedaços de muita coisa: 
quando os queria colar 
sempre algum era arrastado pela chuva, 
sempre algum se perdia em lençóis de sombra. 

A imagem de cada um de nós 
nunca foi suficiente 
para criar no outro o relâmpago, 
o pássaro ígneo, delirante. 

Nunca encontrámos 
o percurso das águas, 
o lugar onde o amor se firma. 

10 - 9 - 1991

In E NO ENTANTO MOVE-SE , Quetzal Editores, 1995
Egito Gonçalves
LOVE STORY
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