Recordo esse momento, esse 
terrível entusiasmo. Eram 
milhares, dezenas de milhar 
e todos se esticavam, todos 
tentavam ver o carro, sentiam 
o solene momento, gritavam 
da alegria mais pura. Era 
um som de pólvora liberta,
uma explosão de esperança, 
de loucura, de vida — sim, 
por uma vez, a vida —. Lembro 
esse gosto de pão, o corte 
brusco na inércia, o fogo 
da presença em oferenda, 
a compressão da ira vinculada 
agora a um caminho. Hoje 
contemplo esta praça, estas 
ruas que a tristeza semeou 
de novo e espero a multidão 
que uma vez aqui floresceu. 
Confio em que virá, O vento 
fala já nos seus passos, faz 
da espera alimento; o ar 
vai encher-se de vozes, vai 
ver-nos todos juntos, livres, 
respirando através das mãos
unidas, através do ardente 
fluido de alegria que liberta 
as raízes do canto estagnado. 


In O PÊNDULO AFECTIVO - ANTOLOGIA POÉTICA:1950-1990 , Edições Afrontamento, 1991
Egito Gonçalves
ÛM DIA DE MAIO
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