Muito longe, muito longe...
      Nem tu sabes, filha
Como era longe, tão longe
      Aquela □ ilha

Onde eu vivi, tão sonhando,
      Uma vida que não tive
E onde Essa cujo olhar brando
      Foi sonho meu, inda vive...

Nem tu sabes como é longe
      Num Oriente de outra Terra
Essa ilha onde eu fui monge!
      Ao longe havia uma serra

Aquém erra o olhar sombrio
      De arvoredos de outro ser
Corria por ele um rio
      Com outro modo de correr

Foi aí que eu aprendi,
      Foi aí que eu fui buscar
O sonho que busco em ti
      E que em ti não posso achar...

É por ter ali vivido
      Que não posso ter amor
A quanto há entre o ruído
      Deste mundo em meu redor.

Por isso quando eu te olho
      Não penso em ti, mas evoco,
Outro amor que em mim desfolho.
      Por isso nunca te toco,

Por isso vivo sozinho
      Alheadamente tristonho...
Não sei construir um ninho
      Senão com penas de sonho

Das que há naquela ilha
      Que amei antes de viver...
Não me olhes... Eu sonho, filha...

II

Mas tu tens às vezes gestos,
      Modos rápidos de olhar,
Leves □ lestos
      Que não tens consciência

Que lembram gestos de Aquela
      Que viveu comigo além
Naquela ilha que é bela
      Pelo Mundo que não tem

E eu pergunto de repente
      Se tu serás ela, e como
Eu próprio sejas doente
      De universo... E um vago assomo

De querer-te no ignorar-te
      De te amar até esquecer-te
Torna-se toda a minha arte...
      Ah o tédio que este céu verte!

 

25 - 1 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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