Sem nexo quereria as opalas e as tardes.
Por silêncio que seja as esfinges onde ardes
Só por acaso o atraso alado sonolesce
No ar alvar do luar onde a alma arrefece.
Se por encontros já destinados a estranhos
Teu nome soletrado entre vagos tamanhos
De árvores, plantas, céu conduzindo a matizes
Educados à flor de análogos países.
Porque, violino velho, antiga lenda, o lar
Perdido e o pó desola as toalhas do altar,
E, nexo tonto posto encosto ao frio novo,
A luxúria do rei nasce no olhar do Povo,
E a revolta, brandindo a coma dos archotes
Vai acordar a sombra agachada nos botes,
E enquanto os tanques longe, entre ramagens dão
O seu murmúrio friorento à escuridão,
No teu pátio de ser, extasiado em ter-te
A hora do luar acorda para ver-te,
E sempre leve, lunar sempre, alga por vezes
A rota segue ignota entre os guizos e os meses
Ora avisando abismos, ora desviando
Seu olhar de ficar entre o sussurro brando
Que século-dezoito as almas entreflui
e novamente o luar no luar se dilui,
Para cegamente e entregue aos poentes mortos
Não haja mais visão das adagas, dos portos,
Das margens outra-vez entregues às passagens
No choro que comove as riquezas das margens...
Tal o vulto que passa entre os renques dos buxos
Tal são sorriso igual confiado aos repuxos,
Ciciado no ar, vago nos arvoredos...

E a noite pára como um lago entre rochedos.

15 - 6 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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