Pensar e não sentir; viver como quem dorme
Numa inconsciência vagamente consciente
Sem saber-se cercado □ da noite enorme
Sem ver o abismo que nos cerca negramente,

Essa é a vida normal □ sorridente
Ao gozo de ser feliz e conforme
Onde a insuspeita realidade nos não mente
Nem a sombra do mundo é (para nós) disforme.

 


23-3-1909

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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