Nas nuvens brancas que lentam
Quando a chuva está à espera
A luz do sol faz uma orla
Que amarela e reverbera

Parece aquele ouro que orla
Os panos para o caixão.
Salvo que as nuvens são brancas
E pretos os panos são.

Mas a verdade é a mesma
Por um mistério da vida
Por isso o ouro orla as nuvens
E os panos da despedida.

Nuvens brancas, panos negros,
Por mais que o queiram cobrir
O mistério transparece
E orla-os de luz a sorrir.

Porque, enfim, o branco alegre
Ou o preto triste são
Cousas que o sol cria e mata
Na sua circunscrição.

 

20 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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