Meu pensamento, dito, já não é
      Meu pensamento.
Flor morta, bóia no meu sonho, até
      Que a leve o vento,

Que a desvie a corrente, a externa sorte.
      Se falo, sinto
Que a palavras esculpo a minha morte,
      Que com toda a alma minto.

Assim, quanto mais digo, mais me engano,
      Mais faço eu
Um novo ser postiço, que engalano
      De ser o meu.

Sim, já pensar é fala que reside.
      Já falo assim.
Meu próprio diálogo interior divide
      Meu ser de mim.

Mas é quando dou forma e voz do 'spaço
      Ao que medito
Que abro entre mim e mim, quebrando um laço,
      Um abismo infinito.

Ah, quem me dera a perfeita concordância
      De mim comigo
O silêncio interior sem a distância
      Entre mim e o que eu digo!


post 16-8-1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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