Ando à busca de outro
      Que consiga o ser
Tão variado e neutro
      Que sinto ao viver...

A hora nos embala?
      Mas viver é só isso...
E tudo se cala
      Como por feitiço

E mais inconsciente
      Do mistério que arde
No poente cinzento
      Com restos de alarde...

Nós não somos nada
      Minha dolorida
A alma é uma estrada...
      E onde é o fim da vida?

Castelos de areia...
      Não chega lá o mar
Mas a alma está cheia
      De não descansar.

Que nas tuas preces
      Eu seja lembrado,
Cismo... Estremeces...
      Sim. Tudo é sonhado...

17 - 11 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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