O que de mim aparece
À janela de mim
De mim se esquece,
Não me é afim.

No que me mostro
Não me revelo,
Cubro o meu rosto
Com o mundo ainda, quando me des-velo.

O sentido que tenho
Não tem nome,
Ninguém em mim.
Não ninguém por quem meu ser me tome.

Mas quando a Aurora
De mim raiar,’
Quando o dia que há lá fora
De mim e não do sol constar;

Quando as ‘strelas
Dentro em mim alma
Constelarem, não suas formas belas,
Mas o sentido que tem de constelar,

Quando, no oceano exterior
Eu tiver manhã,
E depois com um □ a dor

Serei quem sou, mas não aqui,
Compreenderei, mas não eu,
Memória eterna do que também vi,
Eu terra, eu □, e eu céu,

Serei a imagem verdadeira
Do eu irreal que aqui estou,
A forma atávica e primeira
Do que hoje sou,

A face toda olhar e assombro,
Quando o oceano de mim secar,
A Atlântida de mim, sem □ escombro,
Surgirá do fundo do meu mar.

Mas isso quando? Quando o □

E nasço no fim do Ocidente
O sol encoberto, □
E em antemanhã que cessa
Na cerração,
Raiar o fim da promessa,
El-Rei D. Sebastião.

 

28 - 4 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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