Ele aí jaz em plena paz.
Já nada faz nem quer...
Deixem que gele... Acabou p’ra ele já
O amor à pele e o amor da mulher.

Combateu bem sem saber por quem
Ou por quê, e aí têm... assim
E ei-lo aí que dorme o tal sono enorme
Que o fará disforme... E o fim do fim...

Com cega ânsia bruta caiu na luta
Não há vinho ou puta p’ra ele já

Talvez que no violento último momento
Ao cair 
Vivesse mais vida, mas toda vivida

P’ra quê lamentá-lo?

Talvez a vitória seja a morte, e a glória
Seja ser só memória disso
E talvez vencer seja mais morrer
Que sobreviver... Que é a morte? É ocaso...

A vida é só tê-la, vivê-la e perdê-la
De morte vivê-la. Foi o que este fez.
Num grito e num tiro, deu-lhe tudo um giro
Lançou um suspiro e era uma vez...

Nós que vamos pondo razões e cumprindo
Causas e supondo 
Estamos mais no certo que esta besta

E talvez o melhor... Seja lá o que for
A vida voltou, ele é o que é...
Lutemos sem ver da morte o mal que brada
Lá a vida é nada. Tenhamos fé.


 espaço deixado em branco pelo autor

 

18 - 2 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar