Eu sou o sol interior, vivendo
Em si todo o exterior irreal que tenho...
          E nem eu me contenho
          E nem eu me transcendo!
          Não tenho causa ou fim...
Todo o real e o real disperso
— Corpos e almas, Deus e o universo —
Dentro de mim gravita em torno a mim.

É que eu não sou só eu, sou este Ente
Que envelhece de tê-los verdadeiramente [.]
Dentro de mim morre  se descalma...
E a minha Raça universalmente
Ruge oceanos de orgulho na minha alma...

          Vencemos todos os mares
          Olhámos todas as estrelas
          Banharam nosso sonhar todos os luares
          De todas as formas de noites belas...

Por isso algemado atrás de nós levámos
O Horizonte
O nosso trono no Impossível assentámos
E coroámos de Além a nossa fronte!
O nosso ceptro foi o mundo todo
Da nossa Vencedora Presença o lodo
Fulgurou e fulgiu...
Como um Deus cujos passos relampejam
Sob nossos pés vencedores, que ondas beijam
O mundo imemorou-se e em luz se abriu...

Abrimos nossas mãos e as caravelas
          Caíram sobre o mar
— Disperso branquear de velas —
E o vento a uivar, a uivar, a uivar
          Vela a largar! — Velas a largar!


[.] palavra ilegível.

 espaço deixado em branco pelo autor


[1913]

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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