É um palco, e um palco de sonho,
Com figuras sem dever.
No seu destino é risonho
Só não se compreender.

Não há no enredo que jazem
‘Speranças ou ‘spectadores.
O que há de mim no que fazem?
Figuras de ária e de cores.

Fora do insulto e do opróbrio
De existir por ter nascido,
O momento em que vivem, cobre-o
Já o futuro olvido.

Interlúdio incompreensível
Salvo se não se buscar,
Sonho, cor morta, insensível
A ter que querer e amar.

Actores por vida estranha
Nesse viver de vazio e dentro
A vida, que vivem, os banha
Como uma lua com centro.

Mas são reais a seu modo
Têm um universo seu
Que naquele falso está todo
E só precisa de céu.

Ah, viver sempre o mundo,
A vida e a sensação
Só em panos de fundo,
Só em cenário e ficção!

Nas esplanadas pintadas
Do lado em que são reais
Descendo as falsas escadas
Mas gente e vida e □

Estar, como eles, no espaço
Entre a emoção e o gesto,
Seu palco nosso terraço
Sobre o luar interior.

Substância de logro e de febre,
Bosques e noites na alma,
Sem que o encanto se quebre
Pelos bosques tristes de calma.
 
Alegre interferência
Com a vida e a lastimação,
Perfume de desistência,
Gesto absoluto e vão.

A sua paisagem humana
Dum século morto e triste
Tem flores com que engalana
Aquilo que não existe.

E assim vivem longe de ter,
Numa diferença enganada
Da vida, que é plebe e mulher,
E da morte, que não é nada.

14 - 9 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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