Tenho dito tantas vezes
Quanto sofro sem sofrer 
Que me canso dos revezes 
Que sonho só para os não ter.

E esta dor que não tem mágoa,
Essa tristeza intangível,
Passa em mim como um som de água
Ouvido num outro nível.

E, de aí, talvez que seja
Uma nova antiga dor
Que outra vida minha esteja
Lembrando do meu torpor.

E é como a mágoa que nasce
De ouvir música a sentir…
Ah, que emoção em mim passe
Como se a estivesse a ouvir!

11 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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