[Excertos]


Rompendo e emaranhada selva espessa,
Chegou junto a Satã estranho vulto,
De aspecto consumido e gotejando
Rubras gotas de fogo:
Um ancião de torvo olhar incerto,
Com um laço de corda na garganta.
E no seu rosto lívido e febril
Uma sombra evangélica pairava,
Um velho ar remoto e escurecido
Por íntimos remorsos… Era Judas.

Vinha lembrar à negra Postedade
A graça que Jesus lhe concedeu
De abandonar, durante aquela noite,
Os antros infernais;
Porque, outrora, no meio dum caminho,
Ao ver exposto, aos ventos um leproso,
Despiu a sua túnica e vestiu
Com ela o miserável.

Este acto de piedade atenuou-lhe
Esse horroroso crime que aparece
Nas páginas da Bíblia.

Por isso, o espectro trágico de Judas,
Quando anoitece o dia de Natal,
Abandona os infernos e passeia,
Todo envolvido ainda em labaredas,
Nas brancas regiões do Pólo Norte.

Que o nosso pensamento
O acompanhe, de longe, na jornada
Do alívio e da frescura…

Judas percorre as trevas;
Vai galgando distâncias: é relâmpago
De sombra e desespero!

É negra mancha voando; é turbilhão
De sonho que deseja converter-se
Em bruta realidade. […]

E voava… e voava… Surpreendido.
Num imenso alvoroço de alegria,
Viu pequenina estrela cintilar
Sobre a infinda aridez da sua fronte,
Como gota de orvalho, sobre uns lábios
Ressecos e queimados!

A era tão clara, e viva, e tão remota
A pequena estrela, que lembrava
O luminoso términus da Altura.

Então, Judas, baixando o olhar de lume,
E as asas abatendo, precipita-se
Nas regiões do Pólo, como o abutre
Vendo na terra presa apetecida.

E enterrou-se na neve que, de súbito,
Tumultuosamente, derreteu…
E, alucinado e doido,
Corre através dos gelos, que se fundem,
A perseguir o Frio, branco espectro
De fugitiva Ninfa.
E todo incendiado pelas chamas
De sensual desejo insatisfeito,
Abraça os lindos blocos erigidos
Em neve imaculada;
Mas ao contacto ardente dos seus braços,
Os blocos, desfazendo-se, lhe fogem,
Como aparências irreais e vãs… […]

E enquanto, em pleno gelo, as rubras flores
Abriam suas pétalas de lume,
Daquele céu nocturno
Pendiam, rendilhados e ondeantes,
Vivos clarões vermelhos.

E o fantasma de Judas
Parou no meio de uma larga encosta,
Tremendo, imaginando ver, de novo,
As chamas diabólicas!

Mas este grande incêndio era ilusório,
Como as fogueiras a que a gente cai
Durante os pesadelos…

Então, mais calmo, ouvindo um ruído seco,
Um surdo tilintar de movediços
Gelos, que se entrechocam,
Olhou, curioso e atento, para baixo,
De onde, como um deserto, se prolonga
Lisa campina escura…
E a sua superfície, povoada
De flutuantes e flébeis labaredas,
Movia-se e agitava-se; era o mar!

Subitamente, Judas, mais alegre,
Correu direito para as águas gélidas.
Extensas e profundas…
E de alta e de escarpada penedia,
Sem hesitar um ai, se despenhou
Naquele negro abismo!

Seu corpo, ao entrar nas frias ondas,
Abalou-as em doido sobressalto!
E os movediço gelos, com mais força
Bateram uns nos outros.
E o surdo ruído lúgubre aumentara.
Quebrando esse fantástico silêncio
Que pesa sobre os Pólos!

E mergulhou bem fundo; e ao regressar
À tona de água, ali ficou boiando,
Boiando, à tona de água…
E uma primeira sensação de alívio
E virginal frescura lhe percorre
Os membros requeimados.
E, todo condoído e enternecido,
Lembrava a melhor obra
Da sua antiga e trágica existência…

E via, diante de seus olhos via
A chaguenta figura do leproso.
Via o leproso nu; mas sobretudo
O instante de bondade redentora,
Este ímpeto celeste, que nascera
Da própria sombra má do seu espírito
E o levara a despir a velha túnica,
Para vestir com ela um miserável,
Já coberto de chagas e de vermes.
Via ali, mesmo diante de seus olhos,
Húmidos, marejados de esperança,
O espectro do leproso e a roxa tarde,
O vento, a poeira solta do caminho,
A deserta paisagem, – o cenário
Desse instante divino de piedade
Que atenuou seu crime!

E agradecido e bom,
Desfeito numa bênção, entre espumas,
Diluído em rezas íntimas, boiava…

Aleluias de luz, em volta dele,
Bailavam, sobre as ondas…
E boiava, boiava, em pleno mar…
E desejou cantar! Mas a canção
Não desce nunca aos lábios duma Sombra!

E boiava… boiava…
Todo embebido em matinal frescor!
E todo penetrado de suave
E místico prazer…
E seu febril desejo satisfeito
Descravou-lhe do corpo as ígneas garras,
Transformadas agora nos mais brandos,
Fugidios contactos amorosos.

Judas, adormecido neste sono
De Bem-aventurança,
Boiava, boiava sobre o mar profundo,
E sob o céu pacífico, adornado
De rosas purpurinas,
E todo revestido de vermelhas
Cortinas de esplendor, como se fosse
Um grande templo em festa.

E boiava… boiava, sobre as ondas,
Qual a dor, já aliviada, sobre as lágrimas.

E boiava… e boiava, como as nuvens
À negra flor dos montes… como um sonho
À flor da realidade…

E boiando, e sonhando, e recordando,
As ondas o embalavam…

 

 

Teixeira de Pascoaes
REGRESSO AO PARAíSO VI
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