Tudo acabou: os campos e os pinhais
Desde que enfim fechei janela e porta
Agora não sou mais
Que quem não vê e a quem a vida é morta.
Mas que bom o sossego de quem tem
A casa sua e a fecha contra o mundo!.,
Estar só é um bem
Se de estar só há um sentimento fundo.
Tirar da consciência a natureza!
Fechar a alma contra o céu e a terra!
Basta uma tábua dupla em gonzos presa
E correr firme um ferroz que se enterra..
Assim se apaga de quem vive a vida,
Assim o sonho tem o seu lugar
Naquela estagnação indefinida
Que está em ficar só por só ficar.
Mas, ah, fechada a casa e eu, sozinho,
O que sou e o que fui, em fúria nua,
Vem ter comigo, porque o seu caminho
Não há porta fechada que o obstrua.
E eu, que queria ser só, vejo dançando
Ante meus olhos de quem sou em mim
Um vil, irrepelível bando
Que não tem nexo mas tem fim.
Não ouso abrir de novo o que fechei.
Aqui, escravo dos sonhos que pedi,
Sou verdadeiramente rei,
Ah, mas sou rei de aquilo que perdi.
E oiço lá fora o arvoredo e o vento
Fazer barulho, rir, só rir, de quem
Quis contra eles fechar seu pensamento
Mas não o soube fechar bem.
Imagens destroçadas do passado,
Futuros frustes, ébrios de arremedo
Num ritmo falso e desdobrado
Em amplas áleas de ilusão e medo.
Porque fechei meu pobre ser comigo?
Porque vendi a natureza a quem
Não tem nem amor nem amigo?
Porque sem paz me tornei eu ninguém?