Os ranchos das raparigas
Vão pela estrada a cantar.
Cantam cantigas antigas,
Daquelas que, de as lembrar,
Fazem a gente chorar.

Cantam porque outras cantaram...
Cantam por cantar somente.
E o canto que recordaram,
Cantando-o constantemente,
É sempre velho e presente.

Há qualqaer cousa de eterno -
A alegria, a vida, elas -
Que vem no tom alto e terno
Que faz chegar às janelas
Dos que não cantam - aquelas

Que, na penumbra do amor,
Ou esperado ou prometido,
Sentem sua voz de dor
Vinda naquele sentido
Que ali é gritado e rido.

Porque esse canto que passou,
Sem querer, vem figurar
A grande e humana desgraça
Que é amar ou não amar -
A mesma, sem acabar...

18 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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