O sossego da noite desce
Sobre os meus olhos cansados,
E como flor que fenece
Dentro em minh’alma me esquece
O cuidado do meu e dos alheios fados.

Cai vago o fresco escuro
Do silêncio sem fim,
E a dúvida do futuro
Como um mendigo obscuro
Inobservada dorme um sono alheio em mim.

De que nos serve a luta —
Pergunto em mim —  e a dor?
Ter tantas vezes a alma astuta
Para o que sabe e o que perscruta
E não achar no ser um tempo para amor?

Passe ao meu ser a calma
Da noite sem luar.
Sinta-me eu vendo a alma,
Num barco escuro calma,
Incertamente e para longe deslizar. *

Creia-me sem desejo
O momento em que estou;
Perca o saber o que é um beijo,
E o próprio esboço de um desejo,
O que eu nest’hora em mim quero sonhar que sou.

Pareçam-me a arte e a lida
Cousas sem nexo em ser.
Goze eu a indefinida
Alegria de longe da vida
Me sentir apartado e apenas a ver.

Não me lembre o que é pranto...
Lágrimas o que são?
Sinta eu o fresco manto
Deste nocturno encanto
Como um mar vago em torno ao frio coração.

E quando vier a morte,
Não seja senão assim...
Sem saber o que é sorte
Ou o que é ter um norte,
E suave como um sonho a consciência do fim.


* * Fragmento que se encontra inscrito na parede do corredor exterior da Casa Fernando Pessoa

8 - 8 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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