Quem sabe se o que pensamos
Não é só o que esquecemos.
Vamos, remando, sob ramos
Do rio, assentes nos remos;

E uma visão mais remota
Que as margens e o arvoredo
Torce sem querer a rota
Que se seguia em segredo.

Cada rio tem dois rios,
Por um íamos remando
Sem atenção nem desvios,
Contentes de ir avançando.

Mas quando tristes e quedos,
Íamos remando a fio,
Sentimos que os arvoredos
Cobriam um outro rio.

26 - 7 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar