BENEDICTUS DOMINUS DEUS
NOS TER QUI DEDIT NOBIS
SIGNUM

 


PRIMEIRA PARTE


BRASÃO

BELLUM SINE BELLO.

 

I.


OS CAMPOS

 


PRIMEIRO


O DOS CASTELOS

 


A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, é afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar sfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

 

 

SEGUNDO

O DAS QUINAS


Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
         
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
         
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
 


II


OS CASTELOS

 


PRIMEIRO

ULISSES

O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
         
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
          
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

 


SEGUNDO


VIRIATO

 

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
                                                                                                                                       


TERCEIRO

 

O CONDE D. HENRIQUE          


Todo começo é involuntário.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
         
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
        
   
Ergueste-a, e fez-se.
                                                                                                                                        


QUARTO


D. TAREJA


As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!
         
Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!
        
Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.
        
Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!

 

 

QUINTO


D. AFONSO HENRIQUES

 

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
         
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!


                                                                                                                                        

 

SEXTO


D.DINIS   


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
                                                                                                                                       

 


SÉTIMO (I)


D. JOÃO O PRIMEIRO


O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.
        
Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.
         
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.
                                                                                                                                        


SÉTIMO (II)

 

D. FILIPA DE LENCASTRE


Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!
 
                                                          
                                                           
                 

III.

 

AS QUINAS

 


PRIMEIRA

 

D. DUARTE, REI DE PORTUGAL


Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
                                                                                                                                       


SEGUNDA


D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL


Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.
                                                                                                                                       


TERCEIRA

 

D. PEDRO REGENTE DE PORTUGAL


Claro em pensar, e claro no sentir,
E claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
         
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à ideia tida.
Tudo o mais é com Deus!
                                                                                                                                       


QUARTA

D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

 

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.


QUINTA

 

D. SEBASTIÃO, INFANTE DE PORTUGAL


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
         
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

 

 


IV.


A COROA

 

  
 NUNÁLVARES PEREIRA


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando.
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

 


V.


O TIMBRE

 

A CABEÇA DO GRIFO

 

 O INFANTE D. HENRIQUE


Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

 

 

UMA ASA DO GRIFO

 

D. JOÃO  O SEGUNDO


Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra. 
        
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

 

 

A OUTRA ASA DO GRIFO

 


 AFONSO DE ALBUQUERQUE


De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. 
Criou-os como quem desdenha.

 

SEGUNDA PARTE


MAR PORTUGUÊS

  

POSSESSIO MARIS.

 

I.
  

O INFANTE

 

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Deus quis que a terra fosse toda uma, 
Que o mar unisse, já não separasse. 
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 

E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo. 

Quem te sagrou criou-te português. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 
Senhor, falta cumprir-se Portugal! 

 


II


HORIZONTE

 


Ó mar anterior a nós, teus medos 
Tinham coral e praias e arvoredos. 
Desvendadas a noite e a cerração, 
As tormentas passadas e o mistério, 
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério 
Splendia sobre as naus da iniciação. 

Linha severa da longínqua costa — 
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta 
Em árvores onde o Longe nada tinha; 
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: 
E, no desembarcar, há aves, flores, 
Onde era só, de longe a abstracta linha 

O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esprança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade. 

 


III

 

 PADRÃO


O esforço é grande e o homem é pequeno. 
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei 
Este padrão ao pé do areal moreno 
E para diante naveguei. 

A alma é divina e a obra é imperfeita. 
Este padrão sinala ao vento e aos céus 
Que, da obra ousada, é minha a parte feita: 
O por-fazer é só com Deus. 

E ao imenso e possível oceano 
Ensinam estas Quinas, que aqui vês, 
Que o mar com fim será grego ou romano: 
O mar sem fim é português. 

E a cruz ao alto diz o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.

 


IV.

 


 O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
A roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 
E disse: «Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tectos negros do fim do mundo?» 
E o homem do leme disse, tremendo: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

«De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?» 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 
Três vezes rodou imundo e grosso. 
«Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?» 
E o homem do leme tremeu, e disse: 
«El-Rei D. João Segundo!» 

Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 
E disse no fim de tremer três vezes: 
«Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 
E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!» 

 


V

EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS

Jaz aqui, na pequena praia extrema, 
O Capitão do Fim.  Dobrado o Assombro, 
O mar é o mesmo:  já ninguém o tema! 
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

 


VI.

 

OS COLOMBOS

 

Outros haverão de ter 
O que houvermos de perder. 
Outros poderão achar 
O que, no nosso encontrar, 
Foi achado, ou não achado, 
Segundo o destino dado. 
 
Mas o que a eles não toca 
É a Magia que evoca 
O Longe e faz dele história. 
E por isso a sua glória 
É justa auréola dada 
Por uma luz emprestada. 

 

VII.

 

 OCIDENTE


Com duas mãos — o Acto e o Destino — 
Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu 
Uma ergue o fecho trémulo e divino 
E a outra afasta o véu. 

Fosse a hora que haver ou a que havia 
A mão que ao Ocidente o véu rasgou, 
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia 
Da mão que desvendou. 

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal 
A mão que ergueu o facho que luziu, 
Foi Deus a alma e o corpo Portugal 
Da mão que o conduziu. 

 


VIII.

 

FERNÃO DE MAGALHÃES

No vale clareia uma fogueira. 
Uma dança sacode a terra inteira. 
E sombras disformes e descompostas 
Em clarões negros do vale vão 
Subitamente pelas encostas, 
Indo perder-se na escuridão. 

De quem é a dança que a noite aterra? 
São os Titãs, os filhos da Terra, 
Que dançam na morte do marinheiro 
Que quis cingir o materno vulto 
— Cingiu-o, dos homens, o primeiro —, 
Na praia ao longe por fim sepulto. 

Dançam, nem sabem que a alma ousada 
Do morto ainda comanda a armada, 
Pulso sem corpo ao leme a guiar 
As naus no resto do fim do espaço: 
Que até ausente soube cercar 
A terra inteira com seu abraço. 

Violou a Terra. Mas eles não 
O sabem, e dançam na solidão; 
E sombras disformes e descompostas, 
Indo perder-se nos horizontes, 
Galgam do vale pelas encostas 
Dos mudos montes. 


IX.

 ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA

 

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra 
Suspendem de repente o ódio da sua guerra 
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus 
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,  
Primeiro um movimento e depois um assombro. 
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro, 
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões. 

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta 
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,  
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta. 
  

X

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar! 

Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu. 
 

XI

A ÚLTIMA NAU


Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, 
E erguendo, como um nome, alto o pendão 
Do Império, 
Foi-se a última nau, ao sol aziago 
Erma, e entre choros de ânsia e de pressago 
Mistério. 

Não voltou mais. A que ilha indescoberta 
Aportou? Voltará da sorte incerta 
Que teve? 
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, 
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro 
E breve. 

Ah, quanto mais ao povo a alma falta, 
Mais a minha alma atlântica se exalta 
E entorna, 
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço, 
Vejo entre a cerração teu vulto baço 
Que torna. 

Não sei a hora, mas sei que há a hora, 
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora 
Mistério. 
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: 
A mesma, e trazes o pendão ainda 
Do Império. 
  


XII

PRECE

 

Senhor, a noite veio e a alma é vil. 
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade. 

Mas a chama, que a vida em nós criou, 
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou: 
A mão do vento pode erguê-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —  
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância — 
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 

TERCEIRA PARTE

 

O ENCOBERTO


PAX IN EXCELSIS

 

 

I


OS SÍMBOLOS

 

 

PRIMEIRO


D. SEBASTIÃO


Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
  
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É o que me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

 

SEGUNDO

  

O QUINTO IMPÉRIO

 


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar! 

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura. 

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem! 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa — os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

   

 

TERCEIRO

 


 DESEJADO

Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!
 

QUARTO

AS ILHAS AFORTUNADAS

Que voz vem no som das ondas
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas
São terras sem ter lugar,
Onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
Cala a voz. e há só o mar.
 


QUINTO

O ENCOBERTO

Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz Morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.

 


II


OS AVISOS


PRIMEIRO


O BANDARRA



Sonhava, anónimo e disperso,
O Império por Deus mesmo visto,
Confuso como o Universo
E plebeu como Jesus Cristo.

Não foi nem santo nem herói,
Mas Deus sagrou com Seu sinal
Este, cujo coração foi
Não português, mas Portugal.
 

SEGUNDO


ANTÓNIO VIEIRA


O céu strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo. 
É um dia, e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.
 

 

TERCEIRO

 

Screvo meu livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
 

 


III


OS TEMPOS

PRIMEIRO


NOITE

A nau de um deles tinha-se perdido
No mar indefinido.
O segundo pediu licença ao Rei
De, na fé e na lei
Da descoberta, ir em procura
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura.

Tempo foi. Nem primeiro nem segundo
Volveu do fim profundo
Do mar ignoto à pátria por quem dera
O enigma que fizera.
Então o terceiro a El-Rei rogou
Licença de os buscar, e El-Rei negou.

*

Como a um cativo, o ouvem a passar
Os servos do solar.
E, quando o vêem, vêem a figura
Da febre e da amargura,
Com fixos olhos rasos de ânsia
Fitando a proibida azul distância.

*
 


Senhor, os dois irmãos do nosso Nome -
O Poder e o Renome —
Ambos se foram pelo mar da idade
À tua eternidade;
E com eles de nós se foi
O que faz a alma poder ser de herói.

Queremos ir buscá-los, desta vil
Nossa prisão servil:
É a busca de quem somos, na distância
De nós; e, em febre de ânsia,
A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos.
 

 


SEGUNDO


TORMENTA

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.

Isto, e o mistério de que a noite é o fausto... 
Mas súbito, onde o vento ruge,
O relâmpago, farol de Deus, um hausto
Brilha e o mar scuro struge.

 

TERCEIRO

 

CALMA

Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

lha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
A praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sozinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há só sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?


QUARTO


ANTEMANHÃ


O mostrengo que está no fim do mar
Veio das trevas a procurar
A madrugada do novo dia
Do novo dia sem acabar
E disse: Quem é que dorme a lembrar
Que desvendou o Segundo Mundo
Nem o Terceiro quer desvendar?

E o som na treva de ele rodar
Faz mau o sono, triste o sonhar,
Rodou e foi-se o mostrengo servo
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar —
Chamar Aquele que está dormindo
E foi outrora Senhor do Mar.


QUINTO


NEVOEIRO

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
 

É a Hora! 

            Valete, Frates.


[1910-1924]

In Mensagem , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, 1997
Fernando Pessoa
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