I

Não creio ainda no que sinto —
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...

Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali fica parada.

Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.

II


Tudo o que sinto se concentra
Em te sentir
A boca, o amor, o beijo que entra
E sai a rir.

Tudo o que penso se define
Em sentir preso
Teu lábio contra os meus □

 


□ espaço deixado em branco pelo autor

9 - 2 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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