Minha vida violada voltou. Com um saco às costas
Busquei as pinhas verdes de rapaz,
Tirei do mar a onda nítrica a iões difusos
Que endereça os peixes, arfa ao vento e capta
Com ouvidos de sal os sons do Verão que morre.
Afaguei as ovelhas na trama lassa aos meses,
Vapor de água durando, já chuva no pinho lacrimoso.
A poetisa viúva trouxe-me seus pobres versos
E a tarde compensou sua meia humildade.
A morte estacou na esperança. Fugi vivo.
Só depois percebi que a maneira era outra:
Ao céu velado o sol não chegava a romper,
Um fio de ouro à minha viola falsa
Vibrou o novo som compadecido
E fui então o que venceu a sua alma.
Rememora na noite a pomba e a virgem,
Esquece as cores que a terra tinha e o amor criou,
Restitui os desejos a quem saiba,
A paz aos que te sofrem — e arde vivo
Na lembrança de Deus.    Esquece ou canta.

 

10 - 8 - 1971

In Limite de Idade
Vitorino Nemésio
ESQUECE OU CANTA
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